“Uma hora essa bomba vai estourar”, alertam autoridades sobre segurança pública em Itabira

O delegado, a juíza e o promotor concordam que a Apac seria uma boa alterativa para acabar com a alta taxa de reincidência de presos em Itabira

“Uma hora essa bomba vai estourar”, alertam autoridades sobre segurança pública em Itabira
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“Qual é o desafio hoje? Eu coloco na rua, passam dois meses, eles voltam. Eu digo: ‘Oh, você de novo?’, eles dizem: ‘É doutora, de novo’”.

Foi assim que a juíza da 2ª Vara Criminal e de Execuções Penais de Itabira, Cibele Mourão Barroso, relatou sua rotina no Fórum Desembargador Drumond. Ela falou sobre a reincidência da criminalidade durante o 1º seminário do método Apac no município, realizado na última quarta-feira, 5 de outubro, na Acita. Além da magistrada, também palestraram o delegado de Polícia Civil, Paulo Henrique Moreira Campos, e o promotor de justiça, Matheus Beghini. Segundo eles, o sistema de segurança pública de Itabira é uma "bomba relógio".

A juíza e o delegado reforçaram o problema que Itabira vive atualmente: o alto número de reincidência nos crimes. O presídio de Itabira possui capacidade para abrigar 194 presos, mas no momento está com 445 pessoas cumprindo pena ou aguardando julgamento. A maioria deles possui menos de 25 anos. Segundo a juíza, 80% dos presos que saem, retornam. “Isso está errado. Está gritando para a gente: ‘Acordem!’. Assim não vai dar certo. Eles vão voltar de novo, de novo e de novo”, exclamou. 

Em 2014, Itabira tinha aproximadamente 16 mil casos criminais aguardando julgamento nas varas criminais. Hoje, são 14 mil. “Em dois anos, reduzimos o número de casos em mais de dois mil. Estamos conseguindo resolver muito mais casos do que estamos recebendo”, contou. Mas, mesmo com esse dado positivo, existe o problema da reincidência. “Muitos dos que voltam, voltam por causa das drogas”, contou.

Os crimes mais comuns em Itabira são, sucessivamente: roubo, homicídio, tráfico de drogas e crimes sexuais. Segundo a juiza, além da reincidência, dois fatores também são responsáveis pela alta da criminalidade: analfabetismo e desemprego. “Pois os detentos voltam para a rua sem qualquer expectativa ou ressocialização. Voltam tendo nas suas mãos as drogas e o desemprego”, argumentou. 

Para o promotor Matheus Beghini, não existe sistema de justiça no mundo que aguente essa situação. “Uma hora essa bomba vai estourar”, afirmou. 

Situação crítica

O delegado de Polícia Civil, Paulo Henrique Moreira Campos, disse que se a segurança pública de Itabira fosse um paciente, ela estaria na UTI, “de tão grave que é”.

Para ilustrar, o delegado apresentou dados do Portal da Transparência de Minas Gerais sobre a segurança pública de Itabira. Entre 2012 e 2015, o município sofreu um aumento de 86,87% nos homicídios consumados, de 20 para 28 casos. Em 2012, aconteceram 180 registros de crimes violentos; em 2015, foram 437. Aumento de 142,78%.

O delegado reafimou o que foi dito pela juíza. Segundo Paulo Henrique, a criminalidade em Itabira continua crescendo e a polícia nunca prendeu tanto na cidade. “Isso se deve a reiteração criminosa”, alegou.

Alternativa

Na opinião da juíza, do delegado e do promotor, o sistema Apac é uma saída para o atual problema. “Espero que possamos reverter esse quadro, reduzir a nossa população carcerária e dar as pessoas uma chance real de conseguir uma vida digna”, argumentou Cibele.

De acordo com a magistrada, o preconceito é um dos fatores que dificulta a diminuição da reincidência. “Doutora, mas eu não tenho que dar oportunidade para as pessoas que sempre fizeram o bem e não para ele que está preso? Por que eu tenho que dar emprego para alguém que foi preso?. Essas são as perguntas mais frequentes que eu escuto", relata a juíza. Segundo Cibele Mourão, o erro tem que ser punido e o autor recuperado para receber uma segunda chance.

Cibele chegou a ser aplaudida quando disse que olha nos olhos de cada um dos criminosos e enxerga um ser humano. “Tenho certeza, que ao longo do tempo, a comunidade também vai observar que a Apac é uma boa solução”, finalizou.