Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
Mineração
Segundo na hierarquia da Vale, Poppinga diz que desconhecia riscos em Brumadinho

Diretor-executivo de Ferrosos da Vale foi ouvido na CPI da Barragem de Brumadinho da Assembleia Legislativa de Minas Gerais

Publicado em 04/06/2019 - 13h37
Deputados ponderaram que havia sinais de riscos na barragem e que declarações do executivo da Vale são uma tentativa de se eximir de responsabilidades - Foto: Guilherme Dardanhan/ALMG/Divulgação

Causou estranheza aos deputados o depoimento do diretor-executivo de Ferrosos da Vale, o geólogo Gerd Peter Poppinga, à Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Barragem de Brumadinho (MG) da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta segunda-feira (3).

O executivo, segundo na linha de hierarquia da empresa, afirmou não ter nenhum conhecimento sobre os riscos de estabilidade da barragem de rejeitos B1, da Mina de Córrego de Feijão, que se rompeu em janeiro deste ano, provocando a morte de pelo menos 242 pessoas.

O diretor-executivo afirmou que não conhecia os contratos com as auditoras externas contratadas pela mineradora para analisar a estabilidade da barragem e nem foi comunicado sobre os vários problemas detectados na estrutura desde meados de 2018.

“O que sabia é que a barragem estava paralisada e estava sendo elaborado um projeto de descomissionamento, mas que ainda precisavam conhecer melhor o interior dela”, afirmou.

Autonomia

Poppinga justificou que contratos de serviços abaixo de R$ 100 milhões não passam pela diretoria executiva e são definidos pelos executivos operacionais.

Ele afirmou que, em outubro do ano passado, participou de uma reunião do departamento de Gerenciamento de Riscos do Negócio (GRN), na qual foi apresentado um quadro afirmando que mais de 90% das barragens da Vale estavam em total segurança, dez pediam alguma atenção e nenhuma necessitava de alguma intervenção imediata.

Segundo o diretor-executivo, todas as 130 barragens da Vale tinham laudo de estabilidade. Ele afirmou que a empresa trabalha sob o princípio de que “segurança de barragens se faz nas pontas”, oferecendo autonomia aos geotécnicos que cuidam do monitoramento e operação dessas estruturas.

Poppinga acrescentou que tem quase 70 mil funcionários subordinados. Sua diretoria responde por negócios no Brasil e em diversas unidades no exterior. “Não sou onipresente e nem onisciente”, disse mais de uma vez para justificar a delegação das responsabilidades para profissionais subalternos. 

Questionamentos

O relator da CPI, André Quintão (PT), os deputados Sargento Rodrigues (PTB) e Bartô (Novo) e a deputada Beatriz Cerqueira (PT) perguntaram ao diretor-executivo por que a Vale não seguiu as recomendações propostas pela auditora Tüv Süd, que atestou a estabilidade, com algumas observações.

 

Uma das orientações era instalar 30 drenos horizontais para retirar a água de dentro da barragem. Em meados do ano passado, quando foi instalado o 15º dreno, houve uma fratura hidráulica na estrutura e a empresa suspendeu o trabalho.

Gerd Poppinga se limitou a dizer que não tinha conhecimento de que as recomendações não foram cumpridas. E reafirmou que não havia “sinais” de que a barragem poderia se romper.

Os deputados relataram alguns dos problemas detectados na estrutura, além dos drenos e da fratura hidráulica. Foram citados, por exemplo, os alertas de movimentações da barragem, captadas por radares, e distorções nas leituras dos piezômetros, equipamentos que medem a pressão dos líquidos no interior da estrutura.

Contestações

O deputado André Quintão lembrou que havia divergência na análise de risco entre as duas auditoras que trabalharam na mina. Acentuou, ainda, que a empresa definiu um padrão de risco e aceitou a declaração de estabilidade, que apontou um indicador muito menor que o seguro. “Prevaleceu a decisão de não acionar o PAEBM (Plano de Ação Emergencial de Barragem)”, lamentou.

Sargento Rodrigues considerou que a declaração do executivo configura uma tentativa de se eximir de responsabilidades. Lembrou que Poppinga já ocupava o cargo em 2015, quando rompeu a barragem de Fundão, em Mariana (Região Central), que deixou 19 mortos. “O senhor, a meu ver, é sim corresponsável por esse assassinato em massa”, disse o parlamentar.

Beatriz Cerqueira questionou o depoente sobre a delegação de decisões para técnicos operacionais. Em resposta, ele afirmou que numa empresa do porte da Vale é impossível gerenciar sem a delegação.

 

Geotecnia

Gerd Poppinga afirmou que o monitoramento e inspeção das barragens é de responsabilidade da Gerência de Geotecnia Operacional. Segundo ele, se o técnico percebe alguma anomalia no estado de conservação da estrutura, pode acionar o PAEBM, paralisar o trabalho e promover a evacuação do local.

A Gerência de Geotecnia Corporativa é responsável por coordenar as auditorias externas para declaração de estabilidade, as revisões periódicas das barragens e os paineis com especialistas para discutir riscos.

As duas gerências são subordinadas ao diretor de Operações, Silmar Silva, que, por sua vez, se reúne regularmente com Poppinga. O diretor-executivo disse que Silmar Silva não lhe passou qualquer informação de risco da barragem da Mina do Córrego do Feijão. Ele acredita que nenhum dos profissionais percebeu o risco de rompimento.

Suspeita

O deputado Bartô questionou o diretor sobre a aquisição pela Vale da empresa New Steel, que beneficia minérios e rejeitos de mineração. O negócio foi fechado por US$ 500 milhões, em 11 de dezembro de 2018, mesmo dia em que a mineradora obteve do Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) o licenciamento para o descomissionamento da barragem de Brumadinho.

Bartô afirmou que há denúncias de que a barragem entrou como ativo na negociação. Poppinga negou qualquer relação entre o descomissionamento da barragem e a compra da beneficiadora, afirmando que o negócio estava sendo fechado muito antes.


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