Segunda-feira, 15 de Julho de 2019
MUDANÇA
Oficinas de arte promovem ressocialização de jovens acautelados

Mais de 2.800 adolescentes que cumprem medidas já passaram pelas atividades semanais

Publicado em 28/02/2019 - 13h48

Musicalidade, expressão corporal, disciplina e conscientização sobre a vida e a cultura de paz são alguns dos princípios trabalhados com jovens que estão acautelados em dez unidades socioeducativas da capital e da Região Metropolitana de Belo Horizonte (RMBH). Duas vezes por semana, meninos e meninas que cumprem medidas socioeducativas, nas unidades de internação e internação provisória da Secretaria de Segurança Pública, se reúnem por cerca de duas horas para aulas de dança e capoeira. Para professores e agentes, o resultado é nítido e se reflete na melhora geral de comportamento dos adolescentes participantes.

Há três meses frequentando a oficina no Centro Socioeducativo São Jerônimo, em Belo Horizonte, Larissa*, de 15 anos, conta que a sensação de liberdade e o respeito pelos colegas são os principais aspectos trabalhados nas aulas de capoeira. A garota já havia feito o esporte na infância e, quando viu que poderia ter aulas durante a internação, não hesitou em se inscrever. “Tenho certeza que os fundamentos da capoeira vão me auxiliar nas minhas realizações lá fora”, afirma.

Além da prática em si, Larissa diz que as conversas com a professora também têm ajudado muito na conscientização do relacionamento com o outro. “Ela mostrou que a gente pode facilmente encontrar um doutor, um analfabeto e um deficiente numa roda de capoeira, e que é preciso tratar a todos de forma igual, porque ali não existe nenhuma diferença”, diz.

Também aluna das aulas de capoeira, Maria Luz*, de 18 anos, conta que escolheu a modalidade pelas técnicas que auxiliam na defesa pessoal. “A capoeira também ajuda na aproximação com outras pessoas e contribui para que a gente respeite mais o outro e seja respeitada também”, destaca.

Segundo a professora, Maria Tereza de Souza, que há um ano ministra as aulas de capoeira no sistema socioeducativo, com o passar do tempo, é possível perceber nitidamente a mudança de comportamento de adolescentes que chegam rebeldes e desrespeitosos. “Eles ficam mais disciplinados e acabam aprendendo a respeitar o colega, a família e os outros de um modo geral. Em alguns casos, vão perdendo a timidez ou aprendem a controlar a agressividade”, detalha.

Durante as aulas, além de trabalhar os fundamentos de capoeira, Maria Tereza também faz rodas de conversa com a turma. “Acho muito importante esse momento de bate-papo. Nos ajuda a conhecer o que está se passando pela cabeça desses jovens e a identificar questões que podem ser trabalhadas não só aqui na aula, mas também em outros momentos pela equipe pedagógica e psicossocial da unidade. É um trabalho em conjunto”, observa.

Para a professora, as aulas são, em muitos momentos, terapêuticas, uma oportunidade para os jovens se soltarem e falarem de seus medos e dúvidas. Ela conta que os encontros acabam sendo também um espaço de reflexão sobre as formas de auxiliar cada adolescente mais acertadamente em seu processo de ressocialização e responsabilização pelo ato infracional cometido.

Dança em harmonia

A dança como recurso para trabalhar cidadania, respeito mútuo, entre outros pontos. Essa é a ideia das aulas oferecidas para meninos e meninas em cumprimento de medida socioeducativa, de acordo com a professora Regina Perocini. “No processo de ensino da dança, muitos aspectos relevantes vão sendo trabalhados com os grupos, como inteligência emocional, afetividade e sensibilização. Além de ser uma atividade motora, serve também como eixo central na estruturação cognitiva do indivíduo”, comenta.

Maycon*, de 17 anos, é um dos adolescentes que participa das aulas no Centro Socioeducativo Andradas, em Belo Horizonte. Para ele, a oficina não é somente de dança, mas um momento para aprender a conviver em harmonia com outras pessoas com quem, muitas vezes, não tem afinidade. “É como na vida, né? Nem sempre vamos ter ao nosso redor pessoas de quem gostamos e temos simpatia, mas precisamos respeitá-las e trabalhar em equipe mesmo assim”, afirma.

Esforço, dedicação, paciência, confiança, auxílio mútuo e cooperação são algumas das habilidades trabalhadas durante as aulas, segundo os próprios alunos. Questionado sobre como essas habilidades podem auxiliar na vida fora da unidade, João Lucas*, de 16 anos, é categórico: “Nos ajudam a sermos pessoas melhores, que respeitam o outro em qualquer ambiente. Na vida lá fora, muito mais do que aqui dentro, é preciso ter paciência e tolerância para não perder a cabeça”, enfatiza.

Renato*, de 17 anos, concorda com o colega. “Durante a aula, trabalhamos isso quando um colega erra o passo ou quando a gente tem uma bronca com alguém e mesmo assim é ‘obrigado’ a fazer equipe com essa pessoa e dançar em harmonia para dar um resultado bonito. A vida vai sempre nos colocar em situações parecidas”, avalia.

A turma de dança das meninas já teve oportunidade de fazer apresentações externas e os relatos são sempre de muita emoção. Isabela*, de 19 anos, conta que, apesar do nervosismo em se exibir para desconhecidos, a experiência trouxe força e elevou sua autoestima. “É muito legal saber que as pessoas que muitas vezes nos julgam pelos nossos erros também nos aplaudem quando fazemos algo de bom. Ver essas pessoas admirando nossa dança nos deixa orgulhosas de nós mesmas. Faz a gente querer olhar para frente com o comprometimento de ficar no caminho certo”, relata.

Parceria para a ressocialização

As aulas de dança e capoeira fazem parte do Projeto Superação, fruto de um termo de colaboração firmado entre a Subsecretaria de Atendimento Socioeducativo (Suase), da Sesp, e a Organização da Sociedade Civil (OSC) “De Peito Aberto”. De janeiro a dezembro do ano passado, 1.656 adolescentes acautelados participaram da oficina de dança e outros 1.232 da oficina de capoeira. Além dessas aulas, o projeto também oferece aos adolescentes oficinas de esporte, com modalidades diversas, oficinas temáticas e atividades externas.

Agência Minas


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