Terça-feira, 18 de Junho de 2019
MINERAÇÃO
Mais um desastre envolvendo barragem mobiliza prefeitos da região

Gestores de cidades mineradoras procuram a Vale para atestar segurança de barramentos de rejeitos

Rodrigo Andrade Publicado em 29/01/2019 - 12h19
Mapa mostra posicionamento de barragens em Itabira - Foto: Google

Mais uma tragédia envolvendo rompimento de barragem em Minas Gerais despertou o alerta em cidades mineradoras que abrigam estruturas com rejeitos. Na região do Médio Piracicaba, encravada no quadrilátero ferrífero, prefeitos anunciaram ter procurado a Vale para obter novos relatórios sobre a estabilidade dos barramentos.

Em Itabira, o prefeito Ronaldo Magalhães (PTB) informou via rede social que encaminhou à direção da empresa um ofício solicitando diagnóstico sobre a segurança das barragens da cidade. “O nosso município abriga duas das maiores barragens de rejeitos do Brasil”, frisou o gestor, se referindo às estruturas de Itabiruçu e Pontal.  

De fato, os números das duas barragens impressionam. Segundo relatório emitido pela Agência Nacional de Mineração (ANM) neste mês de janeiro, Itabiruçu atualmente comporta 130.751.697,30 m³ de rejeito de minério de ferro. A estrutura é considerada de risco baixo de rompimento pelo órgão regulador, mas tem potencial de dano alto. Recentemente, em meados do ano passado, a Vale obteve autorização do Governo de Minas Gerais para altear a borda da barragem de 836 para 850 metros em relação ao nível do mar.

Já a barragem do Pontal aglomera 226.957.900 m³ de rejeito, de acordo com o mesmo relatório da ANM. O risco de rompimento também é considerado baixo, mas, assim como Itabiruçu, tem potencial de dano alto.

A cidade ainda abriga outros 16 barramentos cadastrados no Plano Nacional de Segurança de Barragens (PNSB). Somente uma não pertence à Vale. Entre estruturas pequenas, médias e grandes, as que mais chamam atenção, além de Itabiruçu e Pontal, são a de Conceição (35,8 milhões de m³), Santana (15,7 milhões de m³) e Rio de Peixe (13,8 milhões de m³). Todas elas estão classificadas como de baixo risco, mas de alto potencial de danos.

Nessa segunda-feira, 28 de janeiro, o vereador André Viana (PODE), presidente do Sindicato Metabase, anunciou que requereu uma audiência com o gerente-executivo da Vale em Itabira, Rodrigo Chaves, e com o diretor de Ferrosos do Sistema Sul, Silvar Silva, para que falem sobre as barragens da cidade. Já o parlamentar Agnaldo Enfermeiro (PRTB) anunciou que protocolou pedido para que o presidente da empresa, Fabio Schvartsman, venha ao município prestar esclarecimentos.

Mapa mostra posicionamento das maiores barragens de Itabira – Foto: Google

São Gonçalo do Rio Abaixo

Em São Gonçalo do Rio Abaixo, terra da gigantesca mina de Brucutu, o prefeito Antônio Carlos Noronha Bicalho (PDT) também se manifestou sobre as barragens que margeiam o município. Lá, a Vale possui quatro estruturas, três de porte menor. Mas há a Barragem Sul, com 53.740.000 de m³ de rejeito. A classificação da ANM é de risco baixo de rompimento, porém de potencial de dano alto.

“Tenho ciência de que o novo desastre reacendeu na população de São Gonçalo apreensão a respeito das barragens localizadas aqui no município. Pouco mais de três anos após o rompimento de Fundão, em Mariana, é completamente aceitável que o sentimento de insegurança assole os moradores de todas as cidades mineradoras que possuem barragens em seu território”, afirmou o chefe do Executivo.

Antônio Carlos acrescentou que solicitou aos responsáveis pela Mina de Brucutu um diagnóstico contendo laudos técnicos sobre as barragens existentes no município, bem como a conclusão do Plano Emergencial de Rompimento de Barragens que vem sendo desenvolvido na cidade. Outra medida foi requerer junto à ANM providências relacionadas à fiscalização da estabilidade e segurança das barragens da cidade. Segundo o gestor, a Prefeitura de São Gonçalo do Rio Abaixo trabalha na elaboração do Plano Contingencial de Rompimento de Barragens, “a fim de evitar acidentes como o que, lamentavelmente, aconteceu em Brumadinho”.

Bem próxima a São Gonçalo, na divisa com Barão de Cocais, está a barragem Norte de Brucutu, com 16.550.529 m³ de rejeito de minério de ferro. O risco de rompimento é baixo, de acordo com a Agência Nacional de Mineração, mas, a exemplo das estruturas de Itabira, o potencial de dano é considerado alto.

Barragem Sul de Brucutu, em São Gonçalo do Rio Abaixo – Foto: Divulgação Vale

Rio Piracicaba

A tragédia em Brumadinho motivou uma reunião de emergência na Coordenadoria Municipal de Defesa Civil de Rio Piracicaba (Comdec). Membros se sentaram à mesa com o prefeito Antônio Cota (DEM) para implantação do Plano de Ação de Emergência de Barragens de Mineração (PAEBM).

Segundo a Prefeitura, desde o início do ano passado a Defesa Civil “vem atuando e pressionando a Vale para o cumprimento dos procedimentos previstos no Plano de Emergência em Rio Piracicaba”. O comunicado emitido pelo Poder Público ainda informa que notificou a mineradora em novembro de 2018 para instalação de placas de sinalização no bairro Bicas após um simulado de evacuação, mas que isso só feito na semana passada.

Rio Piracicaba abriga três barragens da Vale. A maior é a do Diogo, com 6.571.347,70 m³ de rejeitos de minério de ferro. O risco de rompimento é baixo, mas o potencial de dano é alto, segundo a ANM.

O município esclareceu que a continuidade da implantação do PAEBM já tem cronograma definido e terá sequência em fevereiro. Apesar disso, a Prefeitura quer que a Vale entregue, ainda neste semana, relatório de vistoria detalhado sobre as estruturas elaborado por auditoria externa.

Barragem do Diogo, em Rio Piracicaba – Foto: Divulgação Vale

Tragédia em Brumadinho

A barragem I da Mina Córrego de Feijão, operada pela Vale em Brumadinho, se rompeu no início da tarde da última sexta-feira, 25 de janeiro. Segundo a mineradora, cerca de 11 milhões de m³ de rejeito de minério se espalhou pela área administrativa da empresa e comunidades vizinhas. Até o fechamento desta matéria, era 65 o número de mortos encontrados e 279 pessoas desaparecidas.

+ Leia mais sobre a tragédia de Brumadinho!

Na manhã desta terça-feira, 29 de janeiro, cinco pessoas foram presas, entre elas dois engenheiros que assinaram os laudos de segurança da barragem e três funcionários diretos da Vale. A suspeita é de que os documentos atestando o baixo risco da estrutura tenham sido fraudados.


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