Quarta-feira, 24 de Abril de 2019
VIZINHOS DO MEDO
Da sirene às incertezas: a sexta-feira que levou o medo de uma tragédia a Barão de Cocais

Município com pouco mais de 32 mil habitantes vive clima de temor e espera não ser mais uma cidade mineradora marcada por um desastre envolvendo barragens de rejeitos

Rodrigo Andrade Publicado em 08/02/2019 - 18h11
Moradora Lourdes Reis observa o rio São João, que passa bem próximo de sua casa - Foto: Rodrigo Andrade/DeFato

O som das sirenes ainda martela a cabeça do pedreiro Luciano Santos, 40 anos. Morador da comunidade de Socorro, localizada bem abaixo da Barragem Superior Sul, da mina de Gongo Soco, ele e a família foram acordados em meio à madrugada desta sexta-feira, 8 de fevereiro, com um alerta de que a estrutura poderia se romper a qualquer momento. Mesmo horas depois, já seguro no centro de atendimento improvisado pela Vale, a impressão era de que aquele aterrorizante despertador ainda continuava tocando.

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“Imagina você dormindo e é acordado com vizinhos gritando, uma correria danada. Gente doente em casa, crianças, sem saber o que fazer. O único jeito foi pegar o carro, juntar o que deu para juntar e subir para a serra. Ficamos na serra a noite toda, até que pela manhã viemos para cá”, contou o pedreiro a DeFato Online, logo após ele e sua família terem sido cadastrados pela equipe da Vale no ginásio poliesportivo do bairro Viúvas.

Pedreiro Luciano Santos (de azul) teve que deixar a casa às pressas com a família – Foto: Rodrigo Andrade/DeFato

A agonia de Luciano foi vivenciada por mais quase 300 pessoas moradoras das comunidades de Socorro, Piteiras e Tabuleiro, todas muito próximas à barragem que comporta cerca de 6 milhões de m³ de rejeito de minério de ferro. De acordo com o superintendente de Gestão de Desastres da Defesa Civil de Minas Gerais, major Luciano Lopes, 239 moradores haviam sido retirados de suas casas até o início da tarde desta sexta-feira. Pelo menos outros 30 teriam se recusado deixar as residências.

Luciano Lopes acrescentou que a Barragem Superior Sul segue com nível dois de classificação de risco. A possibilidade de rompimento existe e, por isso, o monitoramento passou a ser instantâneo. Relatórios são emitidos a cada quatro horas desde os primeiros indícios de que havia anormalidades, ainda durante a madrugada.

Equipes dos órgãos de defesa civil, poder público e da Vale montaram um grupo para alinhamento de ações. O evacuamento das famílias foi a primeira ação. Outra linha de trabalho é retirar os moradores que se recusaram a sair no momento inicial e também recolher os animais. “O nível de alerta dois determina a evacuação. Havendo o rompimento, nós esperamos que não haja pessoas. O estudo de impacto desse desastre mostra que, caso haja o rompimento, atingiria essas residências. Então, não pode haver ninguém”, comentou o superintendente Luciano Lopes.

Superintendente da Defesa Civil, major Luciano Lopes, falou sobre medidas adotadas – Foto: DeFato

Enquanto os trabalhos das equipes seguem, os moradores cadastrados, após terem recebido tratamentos médico e psicológico, foram encaminhados para hotéis alugados pela Vale em Barão de Cocais, Santa Bárbara e Caeté. Gente como o ferroviário aposentado Manoel Antônio Marinho, 63 anos, que não sabe se poderá voltar para a casa.

“Não pode esperar chegar ao ponto que chegou para nos avisar. São quatro comunidades que viveram uma madrugada terrível. Eu mal tinha acabado de deitar e já fui acordado com as sirenes. Agora está nas mãos de Deus. Vamos esperar o que eles têm a dizer para a gente”, comenta o aposentado, descendente de escravos que foram os primeiros moradores da Vila do Gongo, zona rural de Barão de Cocais.

Senhor Manoel não sabe se poderá voltar para a casa – Foto: DeFato

Medo do rio

As cheias do rio São João são uma frequência para moradores do bairro Vila Regina, próximo ao Centro de Barão de Cocais. Por lá, o temor é frequente sempre que há uma chuva mais forte. A localidade coleciona história de enchentes, mas agora vive um temor diferente.

Os alertas da madrugada que soaram nas comunidades vizinhas à barragem também chegaram aos bairros ribeirinhos. Desde então, as donas de casa Lourdes e Helena Reis estão com os móveis todos suspensos. Uma tática de quem já teve a casa invadida pelas águas do São João algumas vezes, mas de quem não quer nem pensar na tragédia que será se o rio for tomado pela lama de rejeito.

Moradoras temem nova cheia do rio São João, desta vez com rejeitos de minério de ferro – Foto: Rodrigo Andrade/DeFato

“Desde as 3 horas da manhã que estamos acordadas. Colocamos tudo para cima. Buscamos informações, foi uma correria, colocamos tudo para cima. A única coisa que nos disseram é que a barragem corre mesmo o risco de estourar. Não falaram mais nada”, reclama Helena. “Se com uma chuva mais forte a gente já sofre as consequências, imagina se tiver esse rompimento?”, questiona a moradora, ao lado das amigas, enquanto observa o volume do rio São João.

De acordo com a Defesa Civil, até 2 mil pessoas poderiam ser impactadas em caso de um eventual transbordo de rejeitos no rio. As equipes calculam que essa cheia chegaria aos bairros em pouco mais de um hora, tempo que avaliam ser suficiente para avisar e retirar todos os moradores.

Na casa de Helena Reis, no bairro Vila Regina, todos os móveis estão suspensos desde a madrugada – Foto: Rodrigo Andrade/DeFato

A projeção é de que a parte mais massiva do rejeito chegue a 11 quilômetros caso a barragem se rompa, atingindo a parte rural de Barão de Cocais. O rio certamente seria afetado, com danos à qualidade da água e transbordo. “Feito a retirada dos moradores das zonas mais urgentes, a nossa preocupação passa a ser com uma possível inundação se houver o rompimento. As equipes já estão orientadas e acreditamos que há tempo hábil para essa retirada”, declara o superintendente Luciano Lopes.

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