Terça-feira, 23 de Maio de 2017 -
SERRO

Em busca da cidade fantasma

Repórter de DeFato narra a epopeia para chegar à Vila da Capelinha, um santuário carregado de histórias, religiosidade e mistérios
17/05/2014 07h00
Renato Carvalho
RENATO CARVALHO/DEFATO
Cruzeiro erguido no alto da serra, em homenagem à Nossa Senhora das Dores
Galeria de fotos
Renato Carvalho/DeFato
Renato Carvalho/DeFato
Renato Carvalho/DeFato
Célio Roberto Silva, mora próximo à vila há 40 anos / Renato Carvalho/DeFato
Vista do alto da Serra da Caroula / Renato Carvalho/DeFato
Renato Carvalho/DeFato

Matéria publicada na edição 256 da Revista DeFato

A nossa jornada em busca da cidade fantasma começa bem antes da viagem. Em nossa reunião de pauta, o nosso diretor de redação, Sérgio Santiago, levantou a ideia: “E uma cidade fantasma? Será que não tem por aqui?”. Descrente, eu disse que isso não existia. Mais tarde, em uma breve pesquisa descobri a existência de um vilarejo há pouco mais de 70 quilômetros de Conceição do Mato Dentro. Pronto! Achamos a tal vila abandonada. A partir daí comecei a pesquisar informações sobre o local e partimos, quase que às cegas, à procura do vilarejo.

Pelos nossos cálculos, atrapalhados, o melhor caminho seria seguir até Serro, e depois ver a melhor forma de encontrar o lugar. Durante todo o trajeto perguntávamos às pessoas se já tinham ouvido falar da cidade fantasma e a resposta sempre era negativa. Após algumas boas horas de viagem chegamos ao Serro, mas ainda não sabíamos como encontrar o local, que nem no mapa existe. Dessa forma, o Marcelo Eleto, nosso diretor comercial que sempre viaja e conhece toda a nossa região, ligou para o secretário de Turismo de Serro, Pedro Farnesi Neto. Que alívio! Pedro disse que estávamos a 15 quilômetros do vilarejo, e que não seria difícil chegar.

O relógio já marcava 16 horas e alguns minutos, e a preocupação com o pôr do sol incomodava. Eu precisava aproveitar a luz para fazer as fotos. Seguimos, então, pelo caminho indicado pelo secretário. Em uma estrada de terra paramos mais uma vez para pedir informação e encontramos um senhor sem camisa e de bermuda, e, que por uma falha jornalística – mas justificada pela ansiedade de chegar logo a vila – não perguntamos o nome. Bem prestativo, ele nos informou e alertou que a cidade que procurávamos inicialmente não era a mesma vila fantasma que estávamos indo. Mas nessas horas pouco importava. Duas cidades fantasmas na mesma região? Toda minha apuração caiu por terra, mas tínhamos logo a frente uma desconhecida oportunidade.

Subimos por mais algumas estradas de terra e lá no alto a vila surgia. Pronto. Chegamos à Vila da Capelinha, no alto da Serra da Caroula. Uma igreja se destacava em meio às moradias. Atrás dela, um conjunto de pedras nos levou ao topo do morro. Lá, além de uma vista em 360 graus, um cruzeiro em homenagem a Nossa Senhora das Dores reina em meio às montanhas.

São aproximadamente 150 casas, a maioria conservada, com pinturas e caixas d’água novas. A vila ainda conta com fornecimento de energia elétrica. Há apenas uma moradora - que não estava no local no dia que fomos – que cuida de todo vilarejo.

Entre as casas, algumas construções servem como barraquinhas no entorno e caminho do vilarejo. Todas as casas pertencem à Paróquia de Nossa Senhora de Conceição do Serro, e ficam fechadas por todo o ano, sendo habitadas somente durante a festa do Jubileu de Nossa Senhora das Dores, que acontece do segundo ao terceiro domingo de julho. Esse é o motivo pelo qual o local é conhecido por turistas como “Cidade Fantasma”, termo rejeitado pelos moradores, devotos e romeiros, que acreditam ser um lugar místico, de reflexão e que carrega um ar sagrado.

Muita história

De acordo com informações fornecidas por Pedro Farnesi, o local foi construído para ser uma espécie de santuário. No segundo quarto do século XX, um homem chamado José Osvaldo de Gulim resolveu construir o cruzeiro de madeira no alto da serra, em homenagem a Nossa Senhora das Dores. Um tempo depois, alguns moradores locais, devotos, construíram a capela próxima à cruz.

Apesar de erguido no final da primeira metade do século XX, o local possui características da arquitetura colonial rural mineira. O descompasso na ocupação e desenvolvimento das regiões ocasionou a mistura de estilos e técnicas primitivas com outros mais atuais. O conjunto paisagístico e arquitetônico da Serra da Caroula, por seu valor artístico, histórico e cultural, está tombado pelo Decreto Municipal 2188, de 2007.

Isolados

Voltando à nossa aventura, próximo dali, encontramos dois moradores, a aproximadamente uns 600 metros da vila. Trata-se de Dona Niquinha, 65 anos, e Célio Roberto Silva, 43. A primeira, desconfiada e reservada, mora há 40 anos no mesmo lugar e hoje vive com seus quatro netos. Evangélica fervorosa, relatou que a vida lá é sofrida, sem dinheiro. “Se não fosse o pessoal da Igreja fazendo doações, a gente não dava conta”.

Já Célio nasceu e mora há, aproximadamente, 40 anos no local. Vive da venda de artesanato e cortando cabelo dos moradores próximos dali. De acordo com ele, apesar do isolamento, a vida é boa. “Só não dá pra ficar rico. Tudo que precisamos comprar tem na cidadezinha ali perto. Lá tem posto de saúde, médico, dentista”, contou apontando para o lugar que fica há pouco mais de três quilômetros de distância.

Após a nossa jornada, retornamos para Itabira com a sensação de dever cumprido. Não conseguimos chegar à cidade fantasma planejada antes da viagem, mas descobrimos um cantinho simples e desconhecido, carregado de histórias, religiosidade e uma beleza natural impressionante. Ah, e a outra cidade fantasma? Fica para outra edição.

Localização

O acesso à Serra da Caroula encontra-se na MG-010, a 15 km de Serro, sentido Conceição do Mato Dentro. Chegando ao distrito Deputado Augusto Clementino, a distância até cidade fantasma é de aproximadamente três quilômetros. A subida ao local tem paisagens aprazíveis, mas o caminho com chão em terra batida, o solo rochoso e a declividade acentuada torna o acesso difícil, principalmente em períodos chuvosos.

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