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CONHECIMENTO

Armas contra a dengue

Pesquisadores desenvolvem novos métodos de combate à doença que mata 20 mil pessoas por ano no Brasil
02/05/2015 08h00
Sérgio Santiago
AGÊNCIA BRASIL
Mosquito transgênico é testado em vários estados do Brasil
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Tijolinho antidengue

Matéria publicada na edição 268 da revista DeFato

Informação sobre como combater a dengue há. E muita. Não deixar água acumulada nos vasos de plantas, manter os quintais livres de entulho, checar se a caixa d’água está devidamente vedada são dicas passadas e repassadas nas campanhas de conscientização. Mas não é o sufi ciente para acabar com os criadouros do mosquito transmissor da doença. É começar a chover e os índices de infestação vão a níveis estratosféricos.

Pesquisas mostram que 80% dos focos do Aedes aegypt (que também transmite a chikungunya) estão dentro das residências. Para ajudar a atacar o problema de saúde pública, pesquisadores têm feito estudos para métodos complementares. DeFato pesquisou, em algumas universidades, o que há de novo em estratégias de combate à doença que mata 20 mil pessoas por ano no Brasil.

Mosquito transgênico

Uma das estratégias em vigor no Brasil é o Aedes aegypt transgênico, adaptado a partir de uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP). O estudo começou em 2010, em parceria com a empresa britânica Oxitec, que desenvolveu a primeira linhagem do inseto geneticamente modifi cado. Em 2014, o país inaugurou a primeira fábrica de mosquito transgênico do mundo, em Campinas (SP), com capacidade para 2 milhões de Aedes machos por semana. 

A ideia é soltar os insetos alterados na natureza para que eles cruzem com as fêmeas e tenham fi lhotes defeituosos - que morrem antes de chegar à idade adulta. Com o tempo, esse processo reduzirá a população da espécie até extingui-la. Em algumas regiões onde os testes foram feitos, os resultados foram satisfatórios.

Há certo receio, principalmente de entidades ligadas ao meio ambiente, de que o mosquito transgênico sofra mutação e se transforme em outra coisa. Apesar dos protestos, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária e outros órgãos vinculadas à biossegurança no Brasil aprovaram o método.

Tijolinho tóxico

Tóxico para Aedes, é bom ir logo dizendo. Na verdade, o tijolinho é ecologicamente correto e não traz nenhum risco à saúde. Desenvolvido pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), o tablete, em contato com água e radiação solar, libera uma solução que impede a eclosão dos ovos do mosquito Aedes aegypti e mata as larvas recém-nascidas.

Pode ser usado em qualquer lugar onde houver a possibilidade de acúmulo de água, como vasos de plantas, calhas e caixas d’água. Sem água ou luz, o dispositivo não entra em atividade e dura até seis meses.

“Nossa intenção era trabalhar um processo ambientalmente correto e que contribuísse com os métodos e tecnologias já disponíveis para evitar a proliferação da dengue”, conta o professor Jadson Belchior, do Departamento de Química do Instituto de Ciências Exatas da UFMG, coordenador da pesquisa. Segundo ele, o processo é barato. Para se produzir, em laboratório, em torno de mil tijolinhos cúbicos (2 cm³), gastam-se aproximadamente R$ 2, incluindo matéria-prima, reagentes e energia.

Em um segundo momento do processo de desenvolvimento da tecnologia, os pesquisadores pensaram superfícies planas ou similares, como calhas, que também podem acumular água. Foi então que surgiu a manta flexível de tecido sintético com as mesmas propriedades químicas dos tabletes. O princípio ativo utilizado nos tijolinhos e na manta não é nocivo à saúde humana nem afeta a potabilidade da água. A aprovação para uso em larga escala está em tramitação na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Simulador

Ao longo de cinco anos, o professor Tiago Garcia de Senna Carneiro, do Departamento de Computação (Decom) da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), vem trabalhando no desenvolvimento de um software que pode auxiliar em demandas de questões ambientais e de saúde pública. O projeto parte da ideia de simular em computadores cenários e observar o resultado antes de aplicar o projeto na prática. Mais ou menos como um simulador virtual.

Uma das pesquisas desenvolvidas trata da dispersão do mosquito da dengue e de sua distribuição no espaço. A ideia é disponibilizar o software gratuitamente, na forma de ferramenta. “Isso será de grande importância para os agentes de saúde pública, pois poderiam descobrir o melhor a se fazer em determinado quadro, qual a forma mais efi caz de resolver o problema antes de ir a campo e até mesmo quais os melhores lugares para as armadilhas”, detalha Tiago.

Vacina

A corrida pela primeira vacina contra a dengue é outra alternativa que vem sendo estudada em diversos centros de pesquisa do mundo. O estudo mais adiantado, por enquanto, é liderado pela multinacional francesa Sanofi . Até agora, porém, a vacina apresentou eficácia de apenas 61% e precisa ser aplicada em três doses, num período de seis meses.

Na fase de testes, indivíduos de diferentes locais do mundo que habitam regiões onde há grande incidência da doença foram imunizados. Os resultados mostraram que, mesmo expostos ao vírus da dengue, nenhum deles apresentou os sintomas. Não foram observados também efeitos colaterais importantes, apenas dor e vermelhidão no local de aplicação.

No Brasil, o Instituto Butantan e o Hospital das Clínicas da USP trabalham em parceria para desenvolver a vacina, talvez com um índice maior de eficácia. A expectativa é que ainda em 2015 as doses estejam disponíveis para a população.

Contudo, os especialistas alertam: mesmo que outros métodos de combate e controle do Aedes sejam popularizados, a população não pode baixar a guarda. As dicas de sempre de não deixar água parada continuam valendo. Combater a causa é melhor que tratar a consequência.

Risco de epidemia

Em Itabira, o mais recente Levantamento Rápido de Infestação por Aedes aegypti (Liraa) mostrou um aumento assustador dos focos do mosquito transmissor da dengue. O índice médio foi 8,1%, enquanto o tolerado pelo Ministério da Saúde é 1%. Os dados foram apresentados em março deste ano. Os bairros com maior quantidade de focos foram São Bento e região do Parque de Exposições (33,33%), Boa Esperança (29,04%), Água Fresca (25%) e Santo Antônio (21,73%). Até o momento, Itabira registrou 91 notifi cações de casos suspeitos da doença, 19 deles confirmados.

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