Daniel Lança
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A CABANA
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Confesso que não sou muito de ler o que todos leem. Primeiro lugar na lista de mais vendidos no New York Times não raras vezes significam, para mim, nada mais que livros industrializados, feitos sob encomenda para mentes vazias, pseudo-ocupadas com “literatura”; como que comida fast-food, visam tão-somente à venda massiva de romances (des)intrigantes, fantasiadas por personagens mesquinhos, e sem lições que perscrutem o âmago do ser humano - são estórias que tratam de vampiros e bruxos americanizados a “mil-e-uma fórmulas” para ser bem sucedido na vida profissional e/ou sentimental.
 
Todavia, para meu espanto, me peguei a ler alguns desses best-sellers este ano – um deles, em especial, chamou muito minha atenção.
 
Trata-se do livro “A Cabana” (de William Young, Ed. Sextante, 240 p., R$24,90), um romance arranjado e muito bem escrito, que conta a história de Mack Allen Philips, um senhor de meia idade, pai de três filhos, e que viveu uma horrorosa experiência de ter sua filha caçula brutalmente raptada e assassinada enquanto a família se divertia num parque ecológico nos Estados Unidos. Depois de alguns anos vivendo na Grande Depressão, Mack recebe uma carta dizendo esperar uma visita sua à cabana onde sua filha fora assassinada. O bilhete terminava com uma assinatura de... Papai, um jeito a que sua família carinhosamente chamava Deus.
 
Inconformado com o ultraje, e também curioso, Mack decide, então, ir à cabana, sozinho, a fim de ver o que o encontraria pela frente: seria o assassino de sua filha, alguma brincadeira de mal gosto, ou seria mesmo Deus?
 
O que se passa no decorrer do livro (e que não me permito contar-lhes), é uma bela história que percorre o âmago do ser humano – suas decepções inerentes e não facilmente decifráveis, seus sentimentos mais profundos, suas lástimas mais densas, seus anseios mais intangíveis. Além disso, percorrem-se conversas que demonstram uma espiritualidade não convencional, que perpassa o simplismo encontrado no binômio aparência-displiscência, tão comum nos cristãos atuais. São diálogos (sim, diálogos) simples, leves e absurdamente maravilhosos, que à moda descartiana, destroem para depois reconstruir. Destroem a fortaleza que temos a respeito dos assuntos inerentes a Deus e buscam reconstruir uma amizade, pautada na intimidade e no relacionamento entre a humanidade e o divino.
 
E apesar de tratar de assuntos tão delicados, vale ressaltar que “A Cabana” não se classifica como um livro religioso, mas sim como uma fonte para aqueles que têm uma busca intimista pelo divino, quem quer que Ele possa ser.
 
Assim, pontuo de forma simples e recomendo de forma incisiva o opúsculo em questão, cuja leitura atacou-me de uma forma tão poderosa quanto uma bomba atômica. Para o nosso bem, uma bomba maravilhosamente gostosa de ver explodir.
 
SDG
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